sexta-feira, 30 de junho de 2017

NÃO ANDEIS PREOCUPADOS (Levi Cândido)


               



“...Pai nosso que estás nos céus, santificado seja o teu nome; venha o teu reino, faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu; o pão nosso de cada dia dá-nos hoje; e perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós temos perdoado aos nossos devedores; e não nos deixes cair em tentação; mas livra-nos do mal [pois teu é o Reino, o Poder e a Glória para sempre. Amém]. (Mateus 6:9b – 13)

Mui provavelmente, os irmãos que me ouvem e aqueles que lerem este artigo, já recitaram vezes sem conta a oração acima. Embora muitos até mesmo já a tenham em mente, entretanto, não desfrutam da graça confortadora providenciada pelo Senhor e que se encontra revelada nesta oração. Inicialmente gostaria de considerar com os meus irmãos e irmãs sobre o relacionamento íntimo existente nesta oração, expressa logo no início, pela declaração “Pai nosso...”

Creio que se faz necessário o reconhecimento do sentido exato desta expressão; pois trata-se de algo à nível revelacional: relação familiar espiritual efetivada através de Jesus Cristo. Observemos de antemão que a oração é direcionada primeiramente ao Filho pelo Pai, sendo compartilhada com Seus irmãos e retornando ao Pai através da intercessão do Espírito. (Rm 8:26) Notemos então a ordem cronológica da oração: Primeiramente vem do Pai ao Filho, do Filho aos irmãos, e dos irmãos ao Pai pelo mesmo Espírito. Foi o Pai quem conduziu esta oração ao coração do Seu Filho a fim de que Ele pudesse compartilhar com a Sua Igreja. Disse-nos Cristo: “Já vos não chamarei servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho feito conhecer.” (Jo 15:15)

Em Cristo encontra-se toda a plenitude da divindade, e temos nEle a plenitude . Todas as nossas fontes são nEle. (Sl 87:7) Mas alguém poderá objetar: “Mas primeiro partiu dos discípulos a petição; “...Senhor, ensina-nos a orar, como também João ensinou aos seus discípulos.” (Lc 11:1) Na verdade, esta petição foi “oração respondida” por Jesus, pois vemos no verso seguinte: “Então ele os ensinou.” (Lc 11:2ª ) “Tudo o que Deus faz, ele sempre teve o propósito de fazer.”(1) Disto podemos concluir: Toda oração verdadeira e eficaz é aquela que está em conformidade com a vontade de Deus revelada, tem Cristo como medianeiro e sua eficácia pelo Espírito Santo. “E esta é a confiança que temos nele, que, se pedirmos alguma coisa, segundo a sua vontade, ele nos ouve.” (I Jo 5:14) “A oração verdadeira é uma necessidade sentida e despertada em nós pelo Espírito, portanto pedimos a Deus em nome de Cristo, aquilo que está de conformidade com a Sua Santa Vontade”(2)

Assim, “a oração nada mais é que um ato do crente operando juntamente com Deus. É a união do pensamento do crente com a Vontade de Deus.”(3) Ora, se pedimos alguma coisa que não esteja de acordo com a Vontade de Deus, isto deve ser considerado presunção, não oração. A expressão “Pai nosso..”, denota relação familiar espiritual, portanto, somente os regenerados podem desfrutar da graça confortadora providenciada pelo Pai e que encontra-se expressa nesta oração. Sob este enfoque é mister considerarmos os benefícios que o Senhor deseja que Seus santos desfrutem, pois, “o rio do Seu amor não tem margem nem fundo”. Os salvos em Cristo são filhos do Aba. Os propósitos do Pai sempre contam com a sua própria provisão.

Ele é a Fonte donde procede toda a graça proveniente para os suprimentos dos Seus filhos. “Por isso vos digo: Não andeis cuidadosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer ou pelo que haveis de beber; nem quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o mantimento, e o corpo mais do que o vestuário? Olhai para as aves do céu, que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não tendes vós muito mais valor do que elas? E qual de vós poderá, com todos os seus cuidados, acrescentar um côvado à sua estatura? E, quanto ao vestuário, por que andais solícitos? Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam; E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles. Pois, se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe, e amanhã é lançada no forno, não vos vestirá muito mais a vós, homens de pouca fé?

Não andeis, pois, inquietos, dizendo: Que comeremos, ou que beberemos, ou com que nos vestiremos? (Porque todas estas coisas os gentios procuram). De certo vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas estas coisas; Mas, buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal.” (Mt 6:25-34) A razão para não ficarmos preocupados, ou ficarmos livres das preocupações, é pelo fato de que agora, através de Cristo Jesus somos filhos do Aba e é Ele quem cuida de nós. “A ansiedade nunca fortalece você para o amanhã; ela apenas o enfraquece para o dia de hoje.”(4) “Lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós.” (I Pe 5:7) Irmãos e irmãs, se vocês estão preocupados com alguma coisa, olhem firmemente para o Senhor, pois, “nem uma gota de chuva cai em vão”(5) Ele tem em Sua contabilidade até mesmo nossos fios de cabelo. Está escrito: “E até mesmo os cabelos da vossa cabeça estão todos contados.” (Mt 10:30)

Quando fixo os olhos em mim, fico deprimido; quando fixo às pessoas, fico decepcionado; quando fixo às circunstâncias, fico desanimado; mas...quando fixo em Jesus, fico descansado. “Olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus..” (Hb 12:2) Alguém já disse: “Nossos grandes problemas são pequenos demais para o infinito poder de Deus, mas nossos pequenos problemas são grandes demais para o seu eterno amor.” Não obstante as aflições e adversidades cá na terra, “nosso Deus é soberano, Ele reina antes da fundação do mundo”, Ele tem tudo ao Seu dispor. “Seja a vossa moderação conhecida de todos os homens. Perto está o SENHOR. Não estejais inquietos por coisa alguma; antes as vossas petições sejam em tudo conhecidas diante de Deus pela oração e súplica, com ação de graças. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e os vossos sentimentos em Cristo Jesus.” (Fp 4:5-7) Decorre disto algo sumamente importante e que devemos atentar, algo que traz grande consolo, segurança, paz e esperança, quando entendido corretamente e recebido em nossos afetos: na oração ensinada por Jesus, aprendemos a invocar ao Senhor: “Pai nosso que estás nos céus, santificado seja o teu nome; venha o teu reino, faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu..” O que Paulo disse acima (Fp 4:5-7) é muito significativo. Este Deus soberano que agora é nosso Pai, não encontra-se ausente e distante, mas “Perto está o Senhor.” (v.5b) O Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo agora também é nosso Deus e Pai, pois recebemos o “Espírito de Seu Filho que clama: Aba, Pai.” (Gl 4:6) O Seu nome é santificado entre os Seus filhos; Ele é o Deus Todo-Poderoso, o Deus de toda graça, de toda consolação, de toda esperança, de toda provisão. Ele é o Deus soberano, eterno, imutável, Onisciente, Onipresente e Onipotente. Ele é o Espírito Eterno, que está em todo lugar (Onipresente), que tudo sabe (Onisciente) e que tudo pode (Onipotente). Eis o motivo para não andarmos preocupados. “Não há nada que esteja além do olho de Deus.

Qualquer pessoa pode contar as sementes de uma maçã, mas só Deus pode contar todas as maçãs que brotarão de uma semente.”(7) Se compararmos o verso 10 do capítulo 6 de São Mateus, com Salmo 115:3, veremos a perfeita unidade em relação à vontade de Deus com Seus filhos. Assim lemos: “venha o teu reino, faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu...No céu está o nosso Deus; e tudo faz como lhe agrada.” “O Senhor é Rei! Quem, pois, ousará resistir à sua vontade, desconfiar do seu cuidado, murmurar contra seus sábios decretos ou duvidar de suas promessas de Rei?”(6) O que devemos de fato é reconhecê-Lo em nossos caminhos e entregarmos a nossa vida à Sua soberania. Certa reflexão foi assim expressa: “Não há nenhuma decepção para aqueles cujos desejos estão sepultados na vontade de Deus.”(7)

E, com muita sabedoria George Muller também declarou: “O começo da ansiedade é o fim da fé; e o começo da verdadeira fé é o fim da ansiedade” Lemos em Salmo 62:5-8 o seguinte: “Ó minha alma, espera somente em Deus, porque dele vem a minha esperança. Só ele é a minha rocha e a minha salvação; é a minha defesa; não serei abalado. Em Deus está a minha salvação e a minha glória; a rocha da minha fortaleza, e o meu refúgio estão em Deus. Confiai nele, ó povo, em todos os tempos; derramai perante ele o vosso coração. Deus é o nosso refúgio. (Selá.)” “Enquanto o desespero é a declaração da falência de um Deus Todo-Poderoso”, “é impossível que entre em desespero o homem que se lembra que seu Senhor é o Deus Onipotente.”(7)

“Confia no SENHOR de todo o teu coração, e não te estribes no teu próprio entendimento. Reconhece-o em todos os teus caminhos, e ele endireitará as tuas veredas.” (Pv 3:5-6) “Perseverar no meio das lutas, das decepcões, das necessidades, das angústias do coração, reconhecendo que tudo está no controle de Deus; nas mãos daquele que é sábio demais para errar e demais amoroso para ser cruel” traz quietude. “E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito. Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos.” (Rm 8:28-29) Certa vez Watchman Nee proferiu uma pequena oração que é uma grande oração: Ò Deus (dizia ele), Tu não erras jamais. Ao enviar-nos provações, Aba tem um propósito definido: Conformar-nos à imagem de Seu Filho.

Portanto, “pare de atormentar-se com qualquer coisa sobre a qual não pode exercer controle. Guarde o seu coração com toda a diligência e Deus cuidará do universo”(7) C.H. Spurgeon disse: “Não há nenhuma necessidade que não possa ser suprida por Jesus; não há vazio no coração que Cristo não possa encher; não há um ermo que Ele não possa povoar; não há deserto que Ele não possa fazer florescer como a rosa.”

Há uma certa meditação que diz que uma determinada embarcação saiu para o mar, e logo sobreveio uma forte tempestade, balanceando fortemente o navio, deixando a tripulação mui preocupada rumo ao desespero. Porém naquele estado de agitação, uma determinada senhora notou que, a despeito da inquietação quase generalizada dos tripulantes, havia uma menina calmamente deitada numa rede, aproveitando os impulsos do navio, usufruindo-se da boa sensação de descanso. A mulher inconformada dirigiu-se até à menina e questionou: “Menina! Você não percebe que estamos a ponto de naufragarmos e você está aí comportando-se indiferentemente com esta situação?” A menina firmemente respondeu: “É porque eu sei quem está no controle do navio: meu pai!”

NÃO ANDEIS PREOCUPADOS; ABA ESTÁ NO CONTROLE.
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(1)Augustus H. Strong ; (2). A. W. Pink ; (3).Watchman Nee ; (4).J. Blanchard ; (5).John Trapp ; (6).Josiah Condor ; (7).Alguém


Por: Levi Cândido

CRISTO É A NOSSA SUFICIÊNCIA - Levi Cândido




“Mas vós sois dele (de Deus), em Cristo Jesus, o qual (Cristo Jesus) se nos tornou da parte de Deus sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção” (I Co 1:30)



Cristo é a suficiência de Deus para a nossa completa deficiência. Stanley Jones já disse que “Cristianismo é Cristo, e Cristo é a revelação final e absoluta de Deus”. Podemos contemplar em nosso texto meditativo quatro bênçãos específicas que Cristo é para o Seu povo.

1º SABEDORIA. Existem, biblicamente, dois tipos de sabedoria: a humana (animal e diabólica) e a celestial (a sabedoria do alto). Concernente à sabedoria humana em contraste com a divina, podemos ler em Tiago 3:13-18 o seguinte: “Quem dentre vós é sábio e entendido? Mostre pelo seu bom trato as suas obras em mansidão de sabedoria. Mas, se tendes amarga inveja, e sentimento faccioso em vosso coração, não vos glorieis, nem mintais contra a verdade. Essa não é a sabedoria que vem do alto, mas é terrena, animal e diabólica. Porque onde há inveja e espírito faccioso aí há perturbação e toda a obra perversa. Mas a sabedoria que do alto vem é, primeiramente pura, depois pacífica, moderada, tratável, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade, e sem hipocrisia. Ora, o fruto da justiça semeia-se na paz, para os que exercitam a paz.”

A sabedoria mundana está divorciada da vontade divina. O veredicto de Deus para tal sabedoria está expressamente registrado nas Sagradas Escrituras. “Ninguém se engane a si mesmo: se alguém dentre vós se tem por sábio neste século, faça-se estulto para se tornar sábio. Porque a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus; pois está escrito: Ele apanha os sábios na sua própria astúcia. E outra vez: O Senhor conhece os pensamentos dos sábios, que são vãos.” (I Co 3:18-20) Alguém já disse que “você pode pegar um tolo e educá-lo, mas tudo o que consegue obter com seus esforços é um tolo educado! Adolf Hitler vivia cercado de homens bem instruídos — vários deles tinham diplomas em cursos avançados — mas a história provou que todos eles juntos não possuíam senso comum suficiente para se igualar a um idiota mediano! Grande conhecimento sem a necessária sabedoria para usá-lo apropriadamente é uma maldição, não uma vantagem. A sabedoria humana deriva conclusões sem levar Deus em conta e, portanto, está condenada à eventual exposição como uma total inutilidade na melhor das hipóteses, e destrutiva, na pior.” Não é o que o homem julga sobre a sabedoria humana que a valida; é o que Deus atribui a ela. O pregador do Reino Unido Dr. Martyn Lloyd-Jones (20/12/1899 – 01/03/1981) disse com muita propriedade: “Certamente a essência da sabedoria está em, antes de começarmos a agir ou de tentar agradar a Deus, descobrir o que Deus tem a dizer sobre o assunto.” “Porque está escrito: Destruirei a sabedoria dos sábios, E aniquilarei a inteligência dos inteligentes. Onde está o sábio? Onde está o escriba? Onde está o inquiridor deste século? Porventura não tornou Deus louca a sabedoria deste mundo? Visto como na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação.” (I Co 1:19-21) Somos admoestados repetidas vezes pelo SENHOR a buscar a verdadeira sabedoria. Vejamos o que diz o Pregador: “E apliquei o meu coração a esquadrinhar, e a informar-me com sabedoria de tudo quanto sucede debaixo do céu; esta enfadonha ocupação deu Deus aos filhos dos homens, para nela os exercitar. Atentei para todas as obras que se fazem debaixo do sol, e eis que tudo era vaidade e aflição de espírito. Aquilo que é torto não se pode endireitar; aquilo que falta não se pode calcular. Falei eu com o meu coração, dizendo: Eis que eu me engrandeci, e sobrepujei em sabedoria a todos os que houve antes de mim em Jerusalém; e o meu coração contemplou abundantemente a sabedoria e o conhecimento. E apliquei o meu coração a conhecer a sabedoria e a conhecer os desvarios e as loucuras, e vim a saber que também isto era aflição de espírito.” (Ec 1:13-17) Após a consideração de Salomão sobre cada aspecto da vida; os prazeres, aquilo que se produz, ele chegou-se à conclusão: tudo é vaidade. “Vaidade de vaidades, diz o pregador, vaidade de vaidades! Tudo é vaidade.” (Ec 1:2) “Salomão, de todo o coração, procurou perscrutar com sabedoria as coisas terrenas, mas, como logo confessa, debalde, pois só o Espírito de Deus penetra todas as coisas”. A conclusão de todo o seu discurso pode-se ver claramente em Eclesiastes 12:13; “De tudo o que se tem ouvido, o fim é: Teme a Deus, e guarda os seus mandamentos; porque isto é o dever de todo o homem.” Alguém ponderou: “sabedoria, como a encontramos expressa na Bíblia, é "ver as coisas do modo como Deus as vê".

No que se refere à sabedoria divina aprecio o que William S. Plumer disse: “A maior sabedoria desta terra é a santidade”. “Por Deus no trono da vida é a essência da sabedoria”. De fato, compreender o caminho de Deus, reconhecer o nosso dever diante dEle; submetermo-nos a Ele para sermos moldados segundo a Sua palavra e propósitos, indica-nos ser o princípio da sabedoria. “O temor do Senhor é o princípio da sabedoria e o conhecimento do Santo é prudência” (Pv 9:10). J. I. Packer endossa o assunto com muita propriedade: “Só depois que nos tornamos humildes e ensináveis, boquiabertos com a santidade e a soberania de Deus... reconhecendo nossa própria pequenez, desconfiando de nossos pensamentos e dispondo-nos a permitir que nossa mente seja completamente transformada, é que a sabedoria divina se torna nossa”. Na epístola de Paulo aos Corintios podemos aprender algo da sabedoria divina. “Porque os judeus pedem sinal, e os gregos buscam sabedoria; Mas nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura para os gregos. Mas para os que são chamados, tanto judeus como gregos, lhes pregamos a Cristo, poder de Deus, e sabedoria de Deus.” (I Co 1:22-24) Aqui podemos ter o discernimento da essência da verdadeira sabedoria: Cristo. Irmãos e irmãs, um homem ou mulher pode ser dotado de faculdades científicas, medicinais, biológicas, tecnológicas, teológicas, etc..; porém, se não for regenerado por Deus em Cristo, se não tiver a vida de Cristo em seu interior pela fé, nada disto poderá ajudá-lo no dia do juízo; daí a urgente necessidade de Cristo como sua sabedoria para a salvação. O pastor Tom Ascol expôs o ponto da seguinte maneira: “Qual é a sabedoria divina? O que é a sabedoria divina? É um compreender correto das verdadeiras questões importantes da vida. É a compreensão de que há um Deus no céu, que Ele requer retidão dos homens. É a compreensão que de fato existe um céu, que sem sombra de dúvida há um inferno, que pecado é uma coisa séria diante de Deus. Que há um dia de julgamento que está por vir. Que se nós estivermos retos diante de Deus, se quisermos viver assim, precisamos alcançar o seu perdão. A sabedoria que vem do alto é aquela que é dada aos homens através da fé em Cristo Jesus. Os homens nunca serão sábios neste caminho até que Deus pessoalmente revele a estas pessoas Cristo Jesus. Paulo nos diz que Deus tornou Cristo para nós sabedoria de Deus para nos mostrar a nossa necessidade, e para vir de encontro às nossas necessidades. É a primeira benção quando Deus nos traz um relacionamento adequado com o Seu Filho Jesus. Ele se tornou da parte de Deus; sabedoria.” É necessário Cristo como sabedoria para a compreensão das realidades espirituais, porque sem Ele é impossível a revelação das coisas divinas. “Cristo é a chave que abre o entendimento de toda a Escritura”, disse o irmão Romeu Borneli. “Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente...Todas as coisas me foram entregues por meu Pai, e ninguém conhece o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar.” (I Co 2:14 ; Mt 11:27) Aleluia! Cristo é a nossa sabedoria.



2º JUSTIÇA. A segunda benção que Cristo é para o seu povo é justiça. Este tema é inerente ao evangelho. Como já foi dito, “é o coração do evangelho”. Ninguém poderá entender o cristianismo se antes não entender a realidade espiritual da justificação. “Onde esta verdade bíblica é ignorada ou não compreendida, necessariamente haverá um conceito errôneo quanto à aceitação diante de Deus. Perde-se o verdadeiro conhecimento da salvação quando a verdade a respeito da justificação é perdida” (H.J.Appleby). Em primeira instância devemos verificar que a justificação independe de nossos atos meritórios ou de justiça própria. Por melhor que possa parecer, todas as nossas justiças, as melhores obras que possamos fazer concernentes à nossa aceitabilidade diante de Deus são totalmente insuficientes e consideradas imundas perante o SENHOR. Foi assim que o profeta expressou-se; “Mas todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças como trapo da imundícia; e todos nós murchamos como a folha, e as nossas iniqüidades como um vento nos arrebatam... Quem do imundo tirará o puro? Ninguém.” (Is 64:6 ; Jó 14:4) Observem irmãos, o profeta não diz que nossos pecados ou iniqüidades são como trapo da imundícia; mas nossas justiças. Aqui, parece-nos estarmos diante de um dilema. Vejam; para sermos aceitos por Deus há necessidade de uma justiça perfeita, imaculada, pois o SENHOR isto requer. O Seu padrão é absoluto. De modo algum Ele poderá aceitar alguém maculado diante de Sua presença; isto seria minimizar a Sua santidade. O SENHOR é três vezes Santo. “Tu és tão puro de olhos, que não podes ver o mal...Santo, Santo, Santo, é o Senhor Deus, o Todo-Poderoso, que era, e que é, e que há de vir.” (Hc 1:13ª ; Ap 4:8) Porém, como vimos, não podemos ser justos por nós mesmos diante de Deus. A própria Escritura declara-nos: “Como está escrito: Não há um justo, nem um sequer.” (Rm 3:10) Nem mesmo se pudéssemos guardar “todos” os preceitos da Lei, isto não poderia assegurar nossa aceitação diante de Deus. Está escrito: “Sabendo que o homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo, temos também crido em Jesus Cristo, para sermos justificados pela fé em Cristo, e não pelas obras da lei; porquanto pelas obras da lei nenhuma carne será justificada.” (Gl 2:16, ver Rm 8:3) Além disso, o registro de nossa história levanta-se condenavelmente contra nós por todos os nossos atos perversos praticados. Como então poderemos ser aceitos diante de Deus? O pastor Charles Haddon Spurgeon, deixou-nos algo muito importante sobre este aspecto. Disse ele: “Aprendei, amigos meus, a considerar a Deus tão severo em Sua justiça como se nEle não houvesse amor, e tão amoroso como se nEle não houvesse severidade. Seu amor não diminui Sua justiça, nem Sua justiça, no mínimo grau, faz guerra ao Seu amor. As duas coisas estão docemente unidas na expiação de Cristo. Porém, notai que nunca poderemos compreender a plenitude da expiação, até que tenhamos primeiro captado a verdade escriturística da imensa justiça de Deus. Nunca houve uma má palavra dita, nem um mau pensamento concebido ou uma má ação cometida que Deus não tenha punido um ou outro. Ele quer uma satisfação de vocês, ou senão de Cristo. Se não tens expiação por meio de Cristo, você deverá pagar para sempre a dívida que não pode pagar nunca, na miséria eterna; porque tão certo como Deus é Deus, Ele perderá antes a Sua Deidade do que deixar um só pecado sem castigo, ou uma partícula de rebelião sem vingança. Podeis dizer que este caráter de Deus é frio, austero e severo. Não posso impedir que faleis assim; não obstante, o que disse é verdade. Tal é o Deus da Bíblia; e embora repitamos como certo que Ele é amor, não é menos verdade que, além de amor, Ele é repleto de justiça, porque todo o bem se encontra em Deus, e estes elevados à perfeição, de forma que o amor alcança a sua consumada amabilidade e a justiça se torna severamente inflexível nEle. Não há aberração nem distorção em Seu caráter; nenhum de Seus atributos predomina demais a ponto de lançar uma sombra sobre o outro. O amor tem seu pleno domínio, e a justiça não está mais limitada do que Seu amor... Amados irmãos, a gloriosa declaração do evangelho é que em Cristo há uma plena justiça que é imputada a todo o que nele crê, e esta é absolutamente gratuita. “Mas agora se manifestou sem a lei a justiça de Deus, tendo o testemunho da lei e dos profetas; Isto é, a justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo para todos e sobre todos os que crêem; porque não há diferença. Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus; Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus. Ao qual Deus propôs para propiciação pela fé no seu sangue, para demonstrar a sua justiça pela remissão dos pecados dantes cometidos, sob a paciência de Deus; Para demonstração da sua justiça neste tempo presente, para que ele seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus.” (Rm 3:21-26) Nestes versos podemos contemplar dois sentidos do termo “justiça de Deus”. 1) É a justiça que Deus tem e manifesta, sendo perfeitamente consistente com tudo o que Ele mesmo é (3:5), 2) Noutros casos, é um dom que Ele dá (1:17). Nos versos 21,22, significa a justiça que Ele nos dá, enquanto que o primeiro sentido se encontra no v.25. Ambas as idéias estão unidas no v.26.* Tudo o que Cristo é e tudo o que Ele realizou em nosso benefício, compreende-se a essência da justiça divina. “O meio necessário para a justificação é a fé pessoal em Jesus Cristo como Salvador crucificado e como Senhor ressurreto (Rm 4.23-25; 10.8-13). A fé é necessária porque o fundamento meritório de nossa justificação está totalmente em Cristo. Ao nos entregarmos a Jesus, em fé, ele nos concede seu dom da justiça, de modo que no próprio ato de “fechar com Cristo” como os mais antigos mestres Reformados diziam -, recebemos o perdão e a aceitação divinos, que não podemos encontrar em nenhum outro lugar (Gl 2.15-16; 3.24)².” Irmãos, todavia precisamos atentar ao fato de que não é a fé que nos justifica; mas sim, a justiça de Cristo, sendo a fé necessária para a sua obtenção. James Buchanan nos ajuda neste raciocínio. Disse ele: “Fé é o instrumento pelo qual a justiça é adquirida. O comer é necessário para a nutrição de nossos corpos, porém o que nutre é o alimento que comemos. E de modo semelhante, a fé é necessária para receber a justiça, todavia, é a justiça de Cristo que efetivamente nos justifica”. Muitos se gloriam na fé para a salvação; porém os salvos gloriam-se no Senhor através do qual receberam a fé para a salvação, porquanto Jesus é o autor e consumador da fé (Hb 12:2). O homem sem justificação é um morto espiritualmente, logo está destituído da verdadeira fé que justifica, pois, “a fé que salva não é oferecida por Deus ao homem; é lhe conferida”. Há uma seguinte observação: “A fé salvadora, da mesma forma que o arrependimento, é o fruto da regeneração; não é um presente do homem a Deus, mas, em essência, um presente de Deus ao homem.” Podemos colocar ainda da seguinte forma: Deus opera mediante a Sua palavra a fé e o arrependimento. Atentemo-nos aos seguintes textos: “Visto como na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação... de sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus... Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus... E os gentios, ouvindo isto, alegraram-se, e glorificavam a palavra do Senhor; e creram todos quantos estavam ordenados para a vida eterna... Porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade...Pois, segundo o seu querer, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como que primícias das suas criaturas. ” Irmãos, ponto pacífico, a nossa glória está no Senhor. “Porque dele e por meio dele e para ele são todas as cousas. A ele pois, a glória eternamente. Amém.” (Rm 11: 36) Graças a Deus irmãos, pois tudo na vida cristã é pela graça, do começo ao fim. “Merecíamos a condenação, mas Ele nos justificou, merecíamos o inferno, mas Ele nos livrou. Graça, absolutamente graça!” (Tomaz Germanovix) “TENDO sido, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo” (Rm 5:1) “A justiça de Cristo declarada na alta corte de justiça, é nossa absolvição completa e final”. Em II Corintios 5:21 lemos: “Aquele (Cristo) que não conheceu pecado, ele (Deus) o fez pecado por nós; para que nele (em Cristo) fôssemos feitos justiça de Deus.” Irmãos e irmãs, aqui jaz a esperança do evangelho: Cristo é a nossa retidão, Ele é a nossa justiça. Aleluia! Cristo viveu a vida que Deus requer e que nenhum de nós havíamos vivido. Ele observou todos os preceitos da Lei de Deus, magnificando-a e tornando-a honrosa. Não obstante, Ele também padeceu o castigo que a Lei de Deus exigia por causa do pecado. Ele tornou-se tão completamente responsável pelo pecado como se fosse totalmente culpado por ele. Nosso amado irmão Gino Iafrancesco disse com muita propriedade: “Deus não vai cobrar de você o que aceitou cobrar do Cordeiro”. Jesus morreu como se tivesse pecado, não obstante ser reto e justo. “O qual não cometeu pecado, nem na sua boca se achou engano.” (I Pe 2:22) “O juízo justificador de Deus parece estranho, pois declarar justificados os pecadores parece ser exatamente o tipo de ação injusta praticada por um juiz, que a própria lei de Deus o proíbe (Dt 25.1; Pv 17.15). Contudo, é um julgamento justo, porque sua base é a justiça de Jesus Cristo. Como o último Adão “(1Co 15.45), agindo em nosso favor, como nosso Cabeça representativo, Cristo cumpriu a lei que nos prendia e suportou o castigo que merecíamos pela desobediência à lei e, assim, mereceu” a nossa justificação. Por isso, nossa justificação tem base justa (Rm 3.25-26; 1Jo 1.9), com a justiça de Cristo creditada em nosso favor (Rm 5.18-19).”² Assim, a justiça imputada significa o “cumprimento das exigências de um relacionamento correto com ele, apagando a culpa deles (dos que crêem) e lhes creditando justiça (Rm 3.21,22), ajudando-os assim a dedicar-se em prol daquilo que ele declara justo (Rm 6.11-13).” ³

Vejamos uma declaração final de Spurgeon sobre este ponto. Ele disse: “Oh! então, amados, pensai, pois, quão grande deve ter sido a substituição de Cristo, quando satisfez a Deus por todos os pecados de Seu povo. Porque o pecado do homem exige de Deus castigo eterno, e Deus preparou um Inferno para lançar nele todos os que morram impenitentes. Oh! meus irmãos, podeis pensar sobre qual deve ter sido a grandeza da expiação que foi feita em lugar de todos os eleitos, contemplando esta eterna aflição que Deus deveria lançar sobre nós, se Ele não a tivesse derramado sobre Cristo. Olhai! Olhai! Olhai com solene olhar através das trevas que nos separam do mundo dos espíritos, e vede aquela casa da miséria que os homens chamam Inferno! Não podeis suportar o espetáculo. Lembre-se que naquele lugar há espíritos pagando para sempre a dívida à justiça divina; mas embora alguns deles tenham estado durante os últimos quatro mil anos abrasando-se nas chamas, eles não estão mais pertos da libertação do que quando começaram; e quando dez mil vezes dez mil anos tiverem passado, continuarão sem ter feito satisfação a Deus por sua culpa, como não a tem feito até agora. E agora, podeis captar o pensamento da grandeza da mediação de vosso Salvador quando Ele pagou a vossa dívida, e a pagou de uma vez por todas; de forma que agora não há um só centavo de dívida do povo de Cristo ao seu Deus, exceto a dívida de amor. Para a justiça, o crente não deve nada; embora ele devesse originalmente tanto que nem toda a eternidade seria suficiente para o pagamento de sua dívida, todavia, num momento Cristo a pagou toda, de forma que aquele que crê está inteiramente justificado de toda culpa, e livre de todo castigo, através do que Jesus fez. Considerai, pois, quão grande foi a Sua expiação por tudo quanto Ele fez.”¹

“Sendo justificados (sendo considerados, declarados, pronunciados justos) gratuitamente pela sua graça, pela redenção (resgate) que há em Cristo Jesus. Ao qual Deus propôs para propiciação pela fé no seu sangue..” (Rm 3:34-25ª ) Graças a Deus, Cristo se nos tornou da parte de Deus “justiça”.



3º SANTIFICAÇÃO. Irmãos e irmãs, partimos agora para a terceira benção que Cristo é para o seu povo: santificação. Tendo considerado a importância do assunto anterior, sem a qual não poderíamos ser aceitos diante de Deus, dirigimos-nos agora àquilo que é a conseqüência inevitável decorrente da justificação; a santificação. Assim como é verdade inquestionável que sem justificação não há absolutamente salvação, é igualmente verdade que sem santificação ninguém poderá ver o Senhor. “Segui a paz com todos, e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor.” (Hb 12:14) O Senhor Jesus não apenas perdoa os nossos pecados, como também nos purifica dos mesmos, pois, o pecado não é apenas uma ofensa que necessita de perdão; é uma poluição que necessita de purificação. “A justificação nos torna seguros, enquanto a santificação nos faz sãos”. Observem irmãos; não podemos fazer separação entre justificação e santificação; elas são diferenciáveis, porém, não separáveis. Lemos em Romanos 5:18 o seguinte: “Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para a justificação que dá vida.” Esta expressão “que dá vida”, entendemos que é a conseqüência inevitável da justificação. O Senhor não apenas faz Sua obra “por nós”(justificação), como também faz Sua obra “em nós”(santificação). “Tendo por certo isto mesmo, que aquele que em vós começou a boa obra (passado) a aperfeiçoará (presente contínuo) até ao dia de Jesus Cristo” (Fp 1:6) “A santificação é gradual; se ela não aumentar, é porque não está viva”, dizia Thomas Watson. O mínimo irredutível que se pode atribuir a um cristão é que ele é santo. A igreja portanto, é um agrupamento de santos. Disse o Dr. William Temple: “Ninguém é crente, se não é santo, e ninguém é santo, se não é crente”. Isto não quer dizer impecabilidade, inerrância ou perfeccionismo. Em seu sentido neotestamentário, “santo” significa “pessoa separada”, “posto à parte”, em suma, quer dizer; “povo separado por Deus para o Seu propósito”. Podemos ver esta declaração lendo a epístola de I Pedro 2:9 que diz: “Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” Oswald Chambers foi muito feliz em sua colocação dizendo: “O fim destinado ao homem não é felicidade nem saúde, mas, sim, santidade. O único objetivo de Deus é a produção de santos”. “Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor” (Ef 1:4) Notem irmãos, “o apóstolo tem o cuidado de dizer-nos que é “em Cristo” que fomos escolhidos; não fomos apenas escolhidos, mas fomos escolhidos em Cristo”, disse M.Loyd-Jones. Enquanto “santidade” é o estado de ser santo, “santificação” é o processo de se tornar santo; é um processo de crescimento. Podemos ver estes dois exemplos nos seguintes textos: “Para confirmar os vossos corações, para que sejais irrepreensíveis em santidade diante de nosso Deus e Pai, na vinda de nosso SENHOR Jesus Cristo com todos os seus santos... Porque esta é a vontade de Deus, a vossa santificação; que vos abstenhais da prostituição” (I Ts 3:13 ; 4:3) Conforme o dicionário bíblico Ebenezer, santificação é “ato divino mediante o qual os crentes cada vez mais se amoldam à imagem de Cristo”. Um cristão anônimo refletiu com muita precisão : “Cristo vem com uma bênção em cada mão - perdão em uma e santidade na outra; ele nunca dá nenhuma delas a quem não aceitar as duas”. E John Flavel, expressou-se nos seguintes termos: “O que a saúde é para o coração, a santidade é para a alma”. Irmãos e irmãs, a verdade acerca de nossa regeneração anuncia-nos que fomos unidos em Cristo na sua morte e ressurreição. Logo, a vida que hoje temos, vivemos pela fé do Filho de Deus. Ora, “não mais eu, mas Cristo” (Gl 2:20), constitui-se a essência da vida cristã. Disto depreendemos que a santificação é mais de Cristo em nós, dia a dia, e menos de nós pelos efeitos operantes da cruz. “É necessário que ele cresça e que eu diminua. Trazendo sempre por toda a parte a mortificação do Senhor Jesus no nosso corpo, para que a vida de Jesus se manifeste também nos nossos corpos; E assim nós, que vivemos, estamos sempre entregues à morte por amor de Jesus, para que a vida de Jesus se manifeste também na nossa carne mortal.” (Jo 3:30 ; II Co 4:10-11). “Precisamos ter como objetivo um cristianismo que, à semelhança da seiva de uma árvore, percorra todos os ramos e folhas do nosso caráter, a tudo santificando”, dizia J.C.Ryle. Penso que não há nenhuma discrepância em considerarmos o crescimento da vida cristã a partir deste ângulo, isto é, sob o patrocínio da graça de Deus, pois, se faz necessário repetirmos; tudo na vida cristã é pela graça, do princípio ao fim. Desse modo, assim como recebemos a Cristo, devemos prosseguir nele, em tudo dependentes dEle, pois sem Ele nada podemos fazer. Cristo enviou-nos o Seu Espírito para guiar-nos à toda verdade, através do qual somos santificados e transformados de glória em glória, na Sua própria imagem. “Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade. Mas todos nós, com rosto descoberto, refletindo como um espelho a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória na mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor.” (Jo17:17 ; II Co 3:18) “A justificação é aquilo que Deus faz por nós através da pessoa de Jesus Cristo, enquanto a santificação é quase exclusivamente aquilo que Deus faz em nós, por meio do Espírito Santo...O Pai planejou, o Filho a pôs em operação e o Espírito Santo a aplica”. Graças a Deus Pai, pois Ele escolheu um povo em Cristo Jesus, a fim de serem conformados à imagem Dele pelo Espírito Santo. “Entretanto, devemos sempre dar graças a Deus por vós, irmãos amados pelo Senhor, porque Deus vos escolheu desde o princípio para a salvação, pela santificação do Espírito e fé na verdade, para o que também vos chamou mediante o nosso evangelho, para alcançardes a glória de nosso Senhor Jesus Cristo”(2 Ts 2:13-14). Aleluia! Cristo é a nossa santificação.



4º REDENÇÃO. Entramos agora ao último ponto de nossa reflexão: Cristo é a Redenção de Deus para o Seu povo. Esta palavra sugere-nos completa libertação. De certa forma compreende toda a obra da salvação, do princípio ao fim. Nosso irmão Romeu Borneli expressou-se assim: “A salvação abrange a regeneração do espírito, a santificação da alma e a redenção do corpo”. A redenção é uma realidade espiritual que compreende a nossa libertação por Cristo de um outro reino em que éramos cativos. Não poderíamos conhecer nenhuma graça à parte da redenção. Podemos reunir tudo o que foi exposto até aqui com este selo de autenticação da verdade: redenção. W. Stanford Reid, nos ajuda a expressar este enfoque dizendo: “Justificação e santificação são dois aspectos ou dois lados da mesma moeda da redenção divina”. Nesta expressão, “redenção”, compreendemos que se trata de nossa “libertação pelo pagamento de um resgate”. Há uma história que ilustra bem esta benção. Refere-se a uma escrava africana que seria leiloada. “Dois homens disputavam os lances para ver quem a compraria, e ambos eram homens perversos. A escrava sabia que sua vida seria miserável se ela caísse nas mãos de qualquer um deles, de forma que chorava muito. Foi quando um terceiro homem entrou na disputa. Os lances foram aumentando, até que os dois primeiros homens já não podiam mais comprá-la. Assim, ela foi comprada pelo terceiro homem. Ele imediatamente chamou um ferreiro para quebrar as correntes que a prendiam e anunciou a sua liberdade, dizendo: “não comprei você para ser uma escrava, mas para lhe dar a liberdade”. Dizendo isto, ele se foi. A moça ficou perplexa por uns dois minutos. Quando ela “voltou a si”, correu atrás do homem, declarando que dali em diante ela seria sua escrava até o dia da sua morte.” Amados, primeiramente vejam a quem pertencíamos, depois considerem o preço que fomos avaliados, considerando atentamente quem foi o nosso Resgatador e a quem pertencemos agora por direito de redenção. “O qual nos tirou da potestade das trevas, e nos transportou para o reino do Filho do seu amor; Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a saber, a remissão dos pecados;... E cantavam um novo cântico, dizendo: Digno és de tomar o livro, e de abrir os seus selos; porque foste morto, e com o teu sangue compraste para Deus homens de toda a tribo, e língua, e povo, e nação” (Cl 1:13-14 ; Ap 5:9) “Divino amor, tão admirável ! Requer minha alma, minha vida, meu tudo”. Em virtude do pecado, éramos escravos do império das trevas, mas Cristo veio para nos comprar, e pagou um alto preço: o seu precioso sangue. Concernente a isto, também expressou o apóstolo Pedro em sua primeira epístola: “Sabendo que não foi com coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados da vossa vã maneira de viver que por tradição recebestes dos vossos pais, Mas com o precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e incontaminado, O qual, na verdade, em outro tempo foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo, mas manifestado nestes últimos tempos por amor de vós,” (I Pe 1:18-20) Agora somos escravos do Senhor Jesus Cristo. Éramos escravos de Satanás, mas Cristo nos comprou “no mercado”. Somos sua propriedade, pertencemos a Ele. Não fomos nós mesmos que nos redimimos – porque nenhum escravo pode por si mesmo se libertar (ver Jo 8:34 -36) - ; Cristo é a nossa redenção. “O qual se deu a si mesmo em preço de redenção por todos, para servir de testemunho a seu tempo” (I Tm 2:6) Nosso irmão Martin Lloyd -Jones considerou: “O Senhor não veio para dizer-nos o que temos de fazer para salvar-nos; Ele veio para salvar-nos. Ser salvo é estar em Cristo; não simplesmente crer no Seu ensino, mas estar nEle, e ser participante da Sua vida, da Sua morte, do Seu sepultamento, da Sua ressurreição, da Sua ascensão”. P. T. Forsyth também foi oportuno em seu raciocínio: “Como raça, não somos nem ovelhas desviadas nem meramente pródigos errantes: somos rebeldes com armas nas mãos. Portanto, nossa suprema necessidade da parte de Deus não é a educação de nossa consciência... é a nossa redenção.” Amados irmãos, igualmente, esta redenção também tem implicância na nossa salvação futura, pois o mesmo Senhor que pagou o preço pelo Seu povo, também assegura esta salvação com eficácia até o dia de Sua volta onde a salvação estará completada. Nosso Senhor Jesus Cristo é tudo: é tanto a propiciação, como o propiciatório, também a oferta como o Sumo Sacerdote de nossa confissão, “Portanto, pode também salvar perfeitamente os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles.” (Hb 7:25)

“Assim, a justificação dá ao crente a garantia da sua santificação, para esperar com toda a alegria a glorificação final, onde a salvação estará realizada”. Irmãos e irmãs, resumindo tudo o que até aqui temos compartilhado, podemos afirmar indubitavelmente, que a menos que alguém receba o Filho de Deus como sua suficiência, nenhuma destas bênçãos acima poderá ser-lhe apropriada. Nas palavras de Martin Lloyd-Jones “qualquer coisa que se apresente como cristianismo, mas que não insista na absoluta e essencial necessidade de Cristo, não é cristianismo. Se Ele não for o coração, a alma e o centro, o princípio e o fim do que é oferecido como salvação, não é a salvação cristã, seja lá o que for.” Para compreendermos o propósito da salvação, precisamos de Cristo como nossa sabedoria; para sermos libertos da condenação do pecado, precisamos de Cristo como nossa justiça; para sermos santificados – pois sem santificação ninguém verá o Senhor-, precisamos de Cristo como nossa santificação; e para sermos libertos de nossa condição corporal e implicações do pecado, precisamos de Cristo como nossa redenção. “...o próprio Cristo se revela a nós como resposta a todas as exigências de Deus...Quando Cristo lhe pertence, tudo quanto se acha nEle também é seu”. Cristo é a tua suficiência?



¹ (Trecho do livro “Redenção Particular” C.H.Spurgeon, editora PES )

² (Bíblia de estudo de Genebra)

³ (Conforme dicionário bíblico Ebenezer)

* (Comentário Bíblia Vida Nova)



Levi Cândido

Barueri, 01 fevereiro de 2009

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terça-feira, 27 de junho de 2017

O Batismo: um sepultamento - Parte 1 (C.H.Spurgeon)



“Ou não sabeis que todos quantos fomos batizados em Jesus Cristo fomos
batizados na sua morte? De sorte que fomos sepultados com ele pelo batismo na
morte; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do
Pai, assim andemos nós também em novidade de vida..” (Romanos 6:3-4)
Que não se entre em controvérsia neste texto acerca do batismo, por mais que
sobre ele alguns tenham levantado questões sobre o batismo infantil e adulto,
imersão ou aspersão. Se qualquer pessoa puder interpretar de maneira consistente
e conclusiva este texto sem considerar que a imersão é o genuíno batismo cristão,
eu realmente gostaria de ver como o faz. Eu mesmo sou bem incapaz de realizar
tal feito, e não imagino como fazê-lo. Eu me contento em aceitar o ponto de vista
que o batismo significa um sepultamento dos crentes nas águas em nome do
Senhor, e assim eu irei interpretar o texto.
Se alguém tem outra perspectiva, deveria ao menos se interessar em saber qual o
significado que damos ao rito do batismo, e espero que eles não discordem do
sentido espiritual apenas por diferirem no sinal externo. Afinal, o emblema visível
não é o assunto proeminente no texto. Que Deus o Espírito Santo nos ajude a
chegar ao ensino real.
Eu não entendo que Paulo esteja dizendo que pessoas impróprias como os
incrédulos, hipócritas, e enganadores que são batizados o sejam na morte de
nosso Senhor. Ele diz “todos nós que”, colocando-se com o resto dos filhos de
Deus. Ele pretende dizer que estes são os que tem direito ao batismo, e que a ele
vem com seus corações num estado correto. Sobre tais pessoas, Paulo diz, “Ou
não sabeis que todos quantos fomos batizados em Jesus Cristo fomos batizados
na sua morte?” Ele nem mesmo pretende dizer que todos aqueles que foram
batizados por direito tiveram completo entendimento do seu significado
espiritual; pois, se o tivessem, não haveria necessidade da pergunta: “Ou não
sabeis?” Parece que havia alguns batizados que não sabiam realmente o
significado de seu próprio batismo. Eles tinham fé, e uma quantidade de
conhecimento suficiente para torná-los dignos recebedores do batismo, porém não
haviam sido corretamente instruídos na doutrina do batismo; talvez só estivesse
enxergando no batismo o aspecto da lavagem, mas ainda não discerniram a
característica do enterro.
Eu irei além, ao questionar se algum de nós conhece de maneira plena o
significado das ordenanças que Cristo instituiu. Até agora somos como crianças
brincando na praia em relação às coisas espirituais, enquanto o oceano está diante
de nós. O melhor que podemos fazer é entrar no mar só até a altura dos joelhos,
como fazem nossos filhos. Poucos de nós estamos aprendendo a nadar; e quando
aprendemos, só nadamos até onde ainda podemos pisar os pés em segurança.
Quem de nós jamais perdeu de vista a praia e nadou no Atlântico do amor divino,
onde a verdade profunda está realmente no fundo, e o infinito é o que se vê em
redor?
Oh, que Deus nos ensine diariamente daquilo que já sabemos em parte, e que a
verdade que vimos de forma embaçada venha a nós de uma forma mais clara, até
vermos tudo como na presença da total luz do sol. Isso só pode ocorrer se nosso
caráter se tornar mais claro e puro; pois vemos de acordo com o que somos; e tal
qual é o nosso olho assim também é como vemos. O puro de olhos só pode ver
um Deus Santo e Puro. Seremos como Jesus quando o virmos como Ele é (I João
3:2), e certamente não o veremos como Ele é até sermos como Ele. Nas coisas
celestiais nós O vemos tanto quanto nós O temos em nós mesmos. Aquele que
comeu a carne e o sangue de Cristo espiritualmente é o homem que pode vê-lO na
santa ceia, e aquele que foi batizado em Cristo vê Cristo no batismo. Porque a
todo o que tem se lhe dará, e terá em abundância (Mateus 25:29).
O batismo anuncia a morte, sepultamento e a ressurreição de Cristo, e também
nossa comunhão com Ele. Seu ensino tem dois pontos. Primeiro, pensem na
união representativa com Cristo, de tal forma que, quando nosso Senhor foi
morto e enterrado, foi para nosso próprio benefício, e desta forma fomos
enterrados com Ele. Isso nos ensina do batismo na medida em que declara
abertamente uma crença. Declaramos através do batismo que cremos na morte e
Jesus, e desejamos comungar de todo Seu mérito.
Mas há outro assunto tão importante quanto este: trata-se da realização da nossa
união com Cristo, que é demonstrada por meio do batismo, não tanto como uma
doutrina da nossa confissão, mas como uma experiência nossa. Há um tipo de
morte, de sepultamento, de ressurreição, e de viver em Cristo que deve se
apresentar em todos nós que realmente somos membros do corpo de Cristo.
I Primeiramente, então, eu gostaria que você pensasse em NOSSA UNIÃO
REPRESENTATIVA COM CRISTO tal qual é estabelecida no batismo como uma
verdade a ser crida. Nosso Senhor Jesus é o substituto do Seu povo, e quando Ele
morreu foi para o bem desse povo e em seu lugar. A grande doutrina da nossa
justificação depende disso, que Cristo tomou nossos pecados, ficou em nosso
lugar, e como nosso procurador sofreu, e sangrou, e morreu, para apresentar em
nosso lugar um sacrifício pelo pecado. Nós devemos nos lembrar dEle, não como
uma pessoa privada, mas como nosso representante. Nós somos enterrados com
Ele no batismo até a morte para mostrar que O aceitamos como sendo para nós
morto e enterrado.
O Batismo como um enterro com Cristo significa, primeiro, aceitar a morte e
sepultamento de Cristo como sendo para nós. Vamos fazer isso agora mesmo com
todo o nosso coração. Que outra esperança temos? Quando nosso Divino Senhor
desceu das alturas da glória e tomou sobre si a nossa humanidade, Ele se tornou
um comigo e com você; e, tendo sido achado em forma humana (Filipenses 2:7),
ao Pai agradou colocar o pecado sobre Ele, mesmo os seus pecados e os meus
(Isaías 53). Você não aceita essa verdade, e concorda que o Senhor Jesus deve ser
o sofredor da nossa culpa, e permanecer em pé em seu lugar à vista de Deus?
“Amém! Amém!” digam todos vocês.
Ele subiu ao madeiro carregado com toda essa culpa, e lá Ele sofreu em nosso
lugar e legalmente foi penalizado como nós deveríamos sofrer. Agradou ao Pai,
ao invés de moer a nós, moê-lO. Ele O pôs para sofrer, fazendo sua alma uma
oferta pelo pecado. Não aceitamos gratos a Jesus como nosso substituto? Oh
amados, tendo sido batizados nas águas ou não, eu coloco essa questão diante de
vocês, ―Você aceita o Senhor Jesus como seu representante substituto?‖ pois se
não aceitam, vocês devem sofrer a própria culpa e carregar seu próprio
sofrimento, e estar de pé no seu próprio lugar diante do olhar da justiça irada de
Deus. Muitos de nós dizemos no mais profundo do coração -
“Minha alma se volta para ver
O sofrimentos que tu suportaste,
Quando segurado na maldita árvore,
E espera que sua culpa esteja lá”
Agora, sendo sepultados com Cristo no batismo, nós selamos que a morte de
Cristo foi em nosso benefício, e que estávamos com Ele, e morremos nEle, e,
como prova de nossa fé, nós consentimos na tumba de água, e nos deixamos ser
sepultados de acordo com Seu mandamento. Esse é um fato de fé fundamental –
Cristo morto e sepultado por nós; em outras palavras, substituição, procuração,
sacrifício vicário. Sua morte é a base da nossa segurança: não somos batizados no
Seu exemplo, ou em Sua vida, mas em Sua morte. Aqui nós confessamos que
toda a nossa salvação depende da morte de Jesus, cuja morte nós aceitamos como
tendo acontecido por nossa conta.
Mas isso não é tudo; pois se eu devo ser sepultado, não deve ser tanto porque eu
aceito a morte substitutiva de outro por mim e por isso eu mesmo estou morto.
Batismo é um reconhecimento de nossa própria morte em Cristo. Mas porque um
homem vivo deveria ser enterrado? Porque ele deveria ser enterrado porque outro
morreu em seu benefício? Meu sepultamento com Cristo não significa somente
que Ele morreu por mim, mas que eu morri nEle, de tal forma que minha morte
com Ele precisa de um enterro com Ele. Jesus morreu por nós porque ele é um
conosco (João 17:11, 21). O Senhor Jesus Cristo não tomou sobre si os pecados
do Seu povo por uma decisão arbitrária de Deus; mas era totalmente natural e
próprio que Ele deveria tomar os pecados do Seu povo, pois eles são Seu povo, e
Ele é sua cabeça definitiva.
Era necessário Cristo sofrer por esta razão – que Ele era o representante do Seu
povo pela aliança. Ele é a Cabeça do corpo, a Igreja; e se os membros pecaram,
entende-se que a Cabeça, ainda que não tenha pecado, deva sofrer as
consequências das ações do corpo. Assim como há um relacionamento natural
entre Adão e aqueles que estão em Adão, assim há também entre o segundo Adão
e os que estão nEle (Romanos 5:12-21). Eu aceito o que o primeiro Adão fez em
relação ao meu pecado. Alguns de vocês podem discordar disto, e com toda a
dispensação da aliança, se quiserem; mas como agradou a Deus colocar as coisas
dessa forma, e eu sinto os efeitos disso, eu não vejo uso algum para a minha
discórdia com isso. Tal qual aceito o pecado do pai Adão, e sinto que eu pequei
com ele, assim também com alegria intensa eu aceito a morte e sacrifício pela
culpa de meu segundo Adão, e me regozijo que nEle eu morri e ressuscitei. Eu
vivi, eu morri, eu guardei a lei, eu satisfiz a justiça através da aliança da Cabeça.
Deixe-me ser enterrado no batismo que eu mostrarei a todos em volta que eu
creio que eu era um com meu Senhor na morte e enterro pelo pecado.
Olhem para isso, Oh, filhos de Deus, e não temam. Essas são grandes verdades,
seguras e confortantes. Vocês estão entre as nuvens do Atlântico agora, mas não
tenham medo. Percebam o efeito santificador dessa verdade. Suponha que um
homem seja condenado à morte por causa de um grande crime; suponha, aliás,
que ele morreu por aquele crime, e agora, por alguma obra maravilhosa de Deus,
após ter sido morto ele foi vivificado de novo. Ele está novamente entre os
homens, como ressurreto dentre os mortos, e qual é o estado de sua consciência
quanto à sua ofensa? Ele irá cometer aquele crime de novo? Um crime pelo qual
ele morreu? Eu digo enfaticamente: Deus proíbe. Ele certamente dirá: ― eu provei
da amargura desse pecado, e eu fui miraculosamente levantado da morte que me
sobreveio, e revivi; agora eu odiarei aquilo que me matou, e o abominarei com
toda a minha alma.‖
Aquele que recebeu o pagamento do pecado deve aprender como evitá-lo no
futuro. Mas, você responde que ―nós nunca morremos assim. Nunca fomos
obrigados a pagar a dívida do nosso pecado.‖ Correto. Mas aquilo que Cristo fez
por você vem a ser a mesma coisa, e o Senhor olha para isso como a mesma
coisa. Você é então um com Jesus, de tal forma que você deve considerar a morte
dEle a sua morte, Seus sofrimentos como o castigo que lhe traz a paz (Isaías 53:
5). Você morreu na morte de Jesus, e agora por uma graça estranha e misteriosa
você é resgatado do poço de corrupção (Salmo 40:1-2) para uma vida nova.
Como você poderia voltar novamente ao pecado? Você viu o que Deus pensa do
pecado: você percebe que Ele o abomina totalmente; pois quando foi posto sobre
Seu Filho Amado, Ele não O poupou, mas O pôs em sofrimentos e O levou à
morte. Pode você, depois disso, voltar-se àquela coisa maldita que Deus odeia?
Certamente, o efeito dos grandes sofrimentos do Salvador sobre seu espírito deve
ser santificação. Como viveremos para o pecado, nós que para ele morremos
(Romanos 6:1-14)? Como podemos nós, que já passamos debaixo da maldição
(Gálatas 3:13-14), e suportamos sua pesada punição, tolerar seu poder?
Deveríamos voltar a esse mal assassino, vil, virulento, e abominável? Não pode
ser. A graça o proíbe. Deus não o queira.
Essa doutrina não é a conclusão de todo o assunto. O texto nos descreve como
enterrados, mas com a perspectiva de ressurreição. ―Fomos, pois, sepultados
com Ele na morte pelo batismo;‖ - com qual objetivo? - ―para que, como Cristo
foi ressuscitado dentre os mortos, assim também andemos nós em novidade de
vida.‖ Ser enterrado com Cristo! Para quê? Para que você permaneça morto para
sempre? Não, mas agora chegando onde Cristo está, você vá aonde Cristo for.
Segure-se nEle, então: Ele vai, então primeiro ao sepulcro, mas a seguir para fora
do sepulcro; pois quando a terceira manhã chegou Ele levantou. Se você é de fato
um com Cristo, você deve ser um com Ele e passar por tudo; Você será um com
Ele na morte, e um com Ele no enterro, e então você virá a ser um com Ele em
Sua ressurreição.
Sou agora um homem morto? Não, bendito seja o Seu nome, pois está escrito que
―porque eu vivo, vós também vivereis‖ (João 14:19). Fato é que eu estou morto
em um sentido, “considerai-vos mortos”. Mas não estou em outro pois “a vossa
vida está oculta juntamente com Cristo, em Deus” (Colossenses 3:3). E como um
homem estaria absolutamente morto se ele tem uma vida oculta? Não; já que eu
sou um com Cristo eu sou o que Cristo é: como Ele é um Cristo vivente, eu sou
espírito vivente. Que coisa gloriosa é ter voltado dos mortos, porque Cristo nos
deu vida. Nossa velha vida legal foi tirada de nós pela sentença da lei, e a lei nos
vê como mortos (Romanos 7:1-6); mas agora recebemos uma nova vida, uma
vida fora da morte, vida-ressurreição em Cristo Jesus. A vida do cristão é a vida
de Cristo. Não é nossa a vida da primeira criação, mas da nova criação a partir
dos mortos. Agora, pois, andamos nós em novidade de vida (Romanos 6:4),
frutificando para a santificação (Romanos 6:22), e justiça, e alegria pelo Espírito
de Deus. A vida na carne é para nós um obstáculo; nossa vida está no Seu
Espírito. No melhor e mais elevado sentido, nossa vida é espiritual e celestial.
Isso também é doutrina que deve ser guardada muito firmemente.
Eu quero que vocês vejam a força disso; pois eu estou buscando resultados
práticos nesta manhã. Se Deus deu a você e a mim uma vida inteiramente nova
em Cristo, como pode essa vida ser desperdiçada da mesma forma que a vida
velha? Há o espiritual que quer viver como carnal? Como podem vocês que eram
os servos do pecado, que foram libertos pelo sangue precioso, voltar à velha
escravidão (Gálatas 5:1)? Quando vocês estavam na vida do primeiro Adão, vocês
viviam em pecado, e o amavam; mas agora vocês foram mortos e enterrados, e
feitos andar em novidade de vida: como pode ser que vocês estejam voltando aos
rudimentos do mundo de onde o Senhor vos tirou? Se vocês vivem em pecado,
vocês serão falsos na sua profissão de fé; pois vocês professarão estarem vivos
para Deus (Romanos 6:11)?Se vocês andam na concupiscência, vocês vão pisar as
doutrinas benditas da Palavra de Deus, pois elas levam à santidade e pureza. Você
faria o cristianismo ser apenas uma palavra e um provérbio se, depois de tudo,
vocês que saíram da morte espiritual exibissem uma conduta em nada melhor que
a vida do homem comum, e um pouco superior à vida que você mesmo levava.
Visto que muitos de vocês que foram batizados disseram ao mundo ―estamos
mortos para o mundo, e fomos trazidos para uma nova vida‖. Nossos desejos
carnais estão dessa forma vistos como mortos, pois agora vivemos numa ordem
de vida totalmente nova. O Espírito Santo nos deu uma nova natureza, e por mais
que estejamos no mundo, não somos dele, mas somos feitos novo homem,
―criados em Cristo Jesus‖ (Efésios 2:10). Essa é a doutrina que pregamos a todo
homem, que Cristo morreu e ressuscitou, e que Seu povo morreu e ressuscitou
nEle. Dessa doutrina cresce a morte para o pecado e vida para Deus, e desejamos
por cada ação e cada momento de nossas vidas ensiná-la a todos que nos vêem.
Não é esta uma preciosa doutrina? Oh, se vocês de fato são um com Cristo,
deveria o mundo achar vocês se poluindo? Deveriam os membros de uma Cabeça
generosa, graciosa, invejar e serem gananciosos? Deveriam os membros de uma
Cabeça gloriosa, pura e perfeita, ser depredados com as concupiscências da carne
e com as vaidades de uma vida em vão? Se os crentes são de fato identificados
com Cristo de forma tal que eles são Seu tudo, não deveriam eles ser santos eles
mesmos? Se nós vivemos em virtude pela nossa união com Seu corpo, como
podemos viver como vivem os gentios? Como pode ser que tantos crentes
professos exibem uma vida meramente mundana, vivendo para negócios e prazer,
mas não para Deus, em Deus, ou com Deus? Eles dão uma pitada de religião
numa vida mundana, e esperam cristianizá-la. Mas não conseguirão. Eu sou
chamado a viver como Cristo viveria em minhas circunstâncias; escondido em
meu quarto ou no púlpito público, eu sou chamado a ser o que Cristo seria no
mesmo caso. Eu sou chamado a provar aos homens que aquela união com Cristo
não é ficção, nem sentimento fanático: mas que somos movidos pelos mesmos
princípios e agimos pelos mesmos motivos.
Batismo é então de fato um credo, e vocês podem lê-lo nestas palavras: ―unidos
com Ele na semelhança da Sua morte, certamente, o seremos também na
semelhança da Sua ressurreição.



Pregação nº 1627,
Entregue na manhã do dia do Senhor, 30 de outubro de 1881,
por Charles Haddon Spurgeon,
No Tabernáculo Metropolitano, Newington – Londres





O Batismo: um sepultamento - Parte 2 (C.H.Spurgeon)

II Mas, em segundo lugar, UMA UNIÃO REAL COM CRISTO também
acontece no batismo, isso é mais uma questão de experiência que de doutrina.
Primeiro, há morte, então, uma questão de experiência atual do crente verdadeiro.
―Ou, porventura, ignorais que todos nós que fomos batizados em Cristo Jesus
fomos batizados na sua morte?‖ Deve ser contrário a todas as leis enterrar aqueles
que ainda estão vivos. Enquanto não morrerem, o homem não pode ter o direito
de ser enterrado. Muito bem, então, o cristão está morto, - morto, primeiro, para o
domínio do pecado. Toda vez que o pecado lhe chamava, antes, ele respondia,
―aqui estou eu, pois você me chamou.‖ O pecado mandava em seus membros, e
se o pecado dizia, ―faça isso,‖ ele o faria, como o soldado obediente ao seu
centurião; pois o pecado mandava em todas as partes da sua natureza, e exercia
sobre ele uma tirania suprema.
A graça mudou tudo isso. Quando nos convertemos nos tornamos mortos para o
domínio do pecado. Se o pecado nos chama agora, nos recusamos a ir, pois
estamos mortos. Se o pecado nos dá um comando nós não o obedecemos, pois
estamos mortos para a sua autoridade. O pecado vem a nós hoje – oh, que ele não
o faça – e acha em nós a velha corrupção que está crucificada, mas ainda não
morta; mas não tem domínio sobre nossa verdadeira vida. Bendito seja Deus, o
pecado não pode reinar sobre nós, por mais que possa nos assediar e nos trazer
mal. ―Porque o pecado não terá domínio sobre vós; pois não estais debaixo da lei,
e sim da graça.‖ Nós pecamos, mas sem permissão. Com que tristeza nós olhamos
para as nossas transgressões! Quão sinceramente nós nos empenhamos em evitá-
las! O pecado tenta manter seu poder usurpado sobre nós; mas não o
reconhecemos como soberano. O mal entra em nós como um intruso ou estranho,
e trabalha em triste confusão, mas não habita em nós sobre um trono; é alguém de
fora, e rejeitado, e não mais honrado e um prazer. Estamos mortos para o reino do
poder do pecado.
O crente, se espiritualmente sepultado com Cristo, está morto para o desejo de tal
poder. ―O quê!‖ diz você, ―não têm os homens piedosos desejos de pecado?‖ De
fato, eles têm. A velha natureza que há neles deseja o pecado; mas o homem
verdadeiro, o ego real, deseja ser purgado de qualquer espécie ou traço de mal. A
lei que opera em seus membros corre para o pecado, mas a vida no coração
constrange à santidade (Romanos 7:14-23). Eu posso falar honestamente, por
mim mesmo, que meu desejo mais profundo de minha alma é viver uma vida
perfeita. Se eu pudesse ter meu melhor desejo realizado, eu nunca pecaria de
novo; e, apesar disso, eu consinto com o pecado de tal forma que me torno
responsável quando transgrido, meu eu mais interior abunda de iniquidade. O
pecado é meu fardo, não meu prazer; minha miséria, não meu deleite; pensando
nisso eu clamo, ―desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta
morte?‖ (Romanos 7:24). No centro do nosso coração nosso espírito se inclina
firmemente para o que é bom, e verdadeiro, e celestial, de tal forma que o homem
real tem prazer na lei de Deus, e busca de todo coração o que é bom. A verdadeira
tendência atual do desejo e vontade de nossa alma não é para o pecado, e o
apóstolo não nos ensinou mera fantasia quando disse, ―Porque aquele que está
morto está livre do pecado‖ (Romanos 6:7).
Além disso, em segundo lugar estamos como que mortos à busca intensa e aos
objetivos de uma vida ímpia e pecaminosa. Irmãos, há entre vocês alguém que
professa ser servo de Deus vivendo para si mesmo? Então vocês não são servos
de Deus; pois aquele que realmente nasceu de novo vive para Deus: o objetivo de
sua vida é a glória de Deus e o bem aos seus semelhantes. Esse é o prêmio
colocado à frente do homem movido por Deus, e para isso ele corre.
―Eu não corro para isso‖, diz um. Bem, então você não chegará ao destino
desejado. Se você corre atrás dos prazeres do mundo e suas riquezas, você talvez
alcance o prêmio de que está atrás, mas você não pode conquistar o ―prêmio da
soberana vocação de Deus em Cristo Jesus‖ (Filipenses 3:14). Eu espero que
muitos de nós possamos dizer honestamente que estamos agora mortos para
qualquer objetivo na vida, exceto a glória de Deus em Cristo Jesus. Estamos no
mundo, e temos que viver como outros homens vivem, levando para frente nosso
negócio regular; mas tudo isso está subordinado, e não nos agarramos nisso;
nossos alvos estão além de algo mutável. O vôo de nossa alma, como o da águia,
está acima destas nuvens: como aquele pássaro do sol recebe luz nas rochas, que
mesmo descendo às planícies, ainda assim seu prazer é planar buscando a luz,
indo acima das nuvens negras de tempestade, e olhando para todas as coisas
terrenas como inferiores. Semelhantemente nossa vida que nos foi dada
graciosamente segue em frente e acima; não somos do mundo, e as questões do
mundo não são aquelas em que nós gastamos a maioria das nossas forças.
Novamente, estamos mortos nesse sentido, que estamos mortos para a orientação
do pecado. A concupiscência da carne guia um homem para todos os lados. Ele
determina seu curso pela pergunta, ―o que é mais prazeroso? O que me dará mais
gratificação imediata?‖ O caminho dos ímpios é traçado pela mão do desejo
egoísta: mas vocês que são verdadeiros cristãos têm outro guia, vocês são
liderados pelo Espírito em um caminho direito. Você pergunta, ―o que é bom e o
que é aceitável aos olhos do Altíssimo?‖ Sua oração diária é ―Senhor, mostra-me
o que queres que eu faça‖. Vocês estão vivos para o ensino do Espírito, que os
conduzirá a toda a verdade (João 16:13; I João 2:27); mas vocês estão surdos,
sim, mortos para os dogmas da sabedoria carnal, às oposições da filosofia, aos
erros da orgulhosa sabedoria dos homens. Guias cegos que caem (Mateus 15:14)
com suas vítimas na vala são evitados por vocês, que escolheram o caminho do
Senhor. Que abençoado estado de coração é este! Eu creio, meus irmãos, que já o
percebemos de todo! Conhecemos a voz do pastor, e não seguiremos o estranho
(João 10:4-5). Um é o vosso professor, e submetemos nosso entendimento à sua
instrução infalível.
Nosso texto deve ter tido um significado fortíssimo entre os romanos do tempo de
Paulo, pois eles estavam mergulhados em todas as formas de vícios odiosos.
Pegue um romano normal daquele período, e você o verá como um homem
acostumado a gastar grande parte de seu tempo no anfiteatro, embrutecido pelas
visões brutais de shows sangrentos, nos quais gladiadores se matavam para
divertir uma multidão de férias. Ensinados em tal escola, o romano era cruel o
quanto se pode ser, e além disso feroz na satisfação de suas paixões. Um homem
depravado não o era considerado totalmente degradado; não somente nobres e
imperadores eram monstros do vício, mas os professores públicos eram impuros.
Quando aqueles que eram considerados como morais eram corruptos, você pode
imaginar como eram os imorais. ―Divirta-se; siga atrás dos prazeres da carne‖,
essa era a regra da época.
O cristianismo introduziu um novo elemento. Veja um romano convertido pela
graça de Deus! Que mudança há nele! Seu vizinho lhe diz, ―você não estava no
anfiteatro esta manhã. Como pôde perder a visão dos cem alemães que
arrancaram as entranhas uns dos outros?‖ ―Não‖, ele diz, ―eu não estava lá; eu
não suportaria estar lá. Estou completamente morto pra isso. Se você me forçasse
a estar lá, eu teria de fechar meus olhos, pois não poderia olhar para assassinato
ser cometido por esporte!‖. O cristão não se acomodava em locais de
licenciosidade; ele estava realmente morto para tamanha imundície. A moda e os
costumes da época eram tais que os cristãos não conseguiriam consentir com eles,
e assim eles se tornaram mortos para a sociedade. Não é que os cristãos não iam
atrás do pecado público, mas eles falavam dele com horror, e suas vidas o
repreendiam. Coisas que as multidões consideravam com alegria, e falavam
exaltando-as, não davam prazer ao seguidor de Jesus, pois ele estava morto para
tais males. Essa é a nossa confissão solene quando decidimos nos batizar.
Falamos, por atos que são mais audíveis que palavras, que estamos mortos para
aquelas coisas em que os pecadores se deleitam, e queremos ser assim
considerados.
O pensamento seguinte em batismo é enterro. Primeiro vem a morte, e então se
segue o enterro. Agora, o que é enterro, irmãos? Enterro é, antes de tudo, o selo
da morte; é o certificado de perda. ―Está tal homem morto?‖ diz você. Outro
responde, ―porque, meu caro? Ele foi enterrado há um ano‖. Há exemplos de
pessoas enterradas vivas, e eu temo que isso aconteça com triste frequência no
batismo, mas não é natural, e de forma alguma a regra. Eu temo que muitos
tenham sido enterrados vivos no batismo, e tenham posteriormente se levantado e
saído da sepultura como estavam. Mas se o enterro é verdadeiro, é uma prova da
morte. Se eu consigo dizer com verdade, ―Eu fui enterrado com Cristo trinta anos
atrás‖, eu certamente estou morto.
Certamente pensou assim o mundo, pois não pouco depois do meu enterro com
Jesus eu comecei a pregar o Seu nome, e pelo tempo que o mundo me teve há
muito como perdido, e disse, ―ele fede‖ eles começaram a dizer toda sorte de mal
contra o pregador; mas quanto mais eu cheirava mal em suas narinas mais eu
gostava de fazê-lo, pois tanto mais certo eu estava morto para o mundo. É bom
para o cristão ser ofensivo aos homens rebeldes. Vejo como nosso Mestre fedia na
estima dos ímpios quando clamavam ―crucifica-o! Crucifica-o!‖ por mais que
nenhuma corrupção poderia chegar perto de seu corpo santo, ainda assim seu
caráter perfeito não era saboreado por aquela geração perversa. Deve haver,
portanto, em nós a morte para o mundo, e alguns dos efeitos da morte, ou nosso
batismo é vão. Tanto quanto o sepultamento é a prova da morte, então nosso
enterro com Cristo é o selo de nossa mortificação para o mundo.
Mas o enterro é, a seguir, a manifestação da morte. Enquanto o homem está vivo,
os que passam não sabem que ele está morto; mas quando acontece o funeral, e
ele é levado pelas ruas, todos sabem que ele está morto. É isso que o batismo
deve ser. A morte do crente para o pecado é inicialmente um segredo, mas por
uma confissão aberta ele leva todos os homens a saber que ele está morto com
Cristo. Batismo é o rito funeral pela qual a morte para o pecado é abertamente
estabelecida diante de todos os homens.
O sepultamento é também a separação da morte. O homem morto não está mais
em sua casa, mas é colocado à parte como um que parou de ser contado entre os
vivos. Um corpo não é uma companhia bem-vinda. Mesmo o objeto mais amado
depois de um tempo não pode ser tolerado quando a morte fez seu trabalho sobre
ele. Mesmo Abraão, que ficou por tanto tempo unido a sua amada Sara, é ouvido
dizendo, ―sepulte o morto de diante da minha face‖ (Gênesis 23:1-4). Tal é o
crente quando sua morte para o mundo é totalmente conhecida: ele é má
companhia na opinião dos mundanos, e eles o vêm como o estraga-prazeres. O
verdadeiro santo é colocado em separado na mesma classe que Cristo, de acordo
com Sua palavra, ―Se me perseguiram a mim, também perseguirão a vós‖ (João
15:20). O santo é colocado fora do arraial (Hebreus 13:13) na mesma cova que
seu Senhor; pois assim como Ele foi, assim somos nós também neste mundo. Ele
está sepultado pelo mundo naquele único cemitério de fé, se assim o devo
chamar, onde todos os que estão em Cristo estão juntamente mortos para o
mundo, com o epitáfio para todos eles, ―Porque já estais mortos, e a vossa vida
está escondida com Cristo em Deus‖ (Colossensses 3:3).
E a cova é o lugar – eu não sei de onde tirar uma palavra disso – de acomodação
da morte; pois quando um homem é morto e enterrado você jamais espera vê-lo
voltando para casa novamente: tanto quanto este mundo está informado, morte e
enterro são irreversíveis. Eles me dizem que espíritos andam pela terra, e todos
nós vimos no jornal ―A verdade sobre fantasmas‖, mas eu tenho minhas dúvidas
neste assunto. Nas questões espirituais, entretanto, eu temo que alguns não
estejam muito sepultados com Cristo, mas andam entre as tumbas. Me entristece
muito que seja assim. O homem em Cristo não pode andar como fantasma, pois
ele está vivo em outro lugar; ele recebeu um novo ser e, portanto, ele não pode
aparecer entre os falsos mortos a seu redor. Veja o que nosso capítulo fala sobre o
Senhor: ―sabendo que, havendo Cristo ressuscitado dos mortos, já não morre; a
morte não mais terá domínio sobre ele. Pois, quanto a ter morrido, de uma vez
morreu para o pecado; mas, quanto a viver, vive para Deus.‖ (Romanos 6:9-10).
Se de fato fomos vivificados das obras mortas nós jamais devemos voltar-nos a
elas. Eu posso até pecar, mas o pecado não pode ter domínio sobre mim; eu posso
ser um transgressor e ir longe do meu Deus, mas jamais eu poderia voltar à velha
morte novamente. Quando a graça do meu Senhor me tomou, e me enterrou, ele
forjou em minha alma a convicção que dali em diante e para sempre eu era para o
mundo um homem morto.
Eu estou verdadeiramente grato em não ter comprometido isso, mas ter ido direto
para fora. Eu desembainhei a espada, e lancei fora a bainha (Efésios 6:17;
recomendo a leitura de ―A espada do Espírito‖). Digam ao mundo que é melhor
eles não tentarem nos buscar de volta, pois estamos tão estragados para ele como
se estivéssemos mortos. Tudo que poderiam ter de nós seriam nossas carcaças.
Digam ao mundo para não nos tentar mais, pois nossos corações estão mudados.
O pecado pode encantar o homem velho, homem dependurado na cruz, e ele deve
até virar o seu olho luxuriante naquela direção, mas ele não pode seguir seu
relance, pois ele não pode descer da cruz: O Senhor teve o cuidado de malhar
bastante, e Ele pregou suas mãos e pés firmemente, de tal forma que a carne
crucificada permanecerá no lugar de sofrimento e morte. Sendo isso também
verdade, a genuína vida que está em nós não pode morrer, pois nasceu de Deus;
nem pode habitar em tumbas, pois seu chamado é à pureza e alegria e liberdade; e
a esse chamado se rende.
Nós chegamos até a morte e o sepultamento; mas o batismo, de acordo com o
texto, representa também a ressurreição: ―como Cristo ressuscitou dos mortos
pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida‖ (Romanos
6:4). Agora, note que o homem que está morto em Cristo, e sepultado com Cristo,
é também levantado de entre os mortos em Cristo, e esse é um trabalho especial
sobre ele. Nenhum morto está ressuscitado, mas o nosso Senhor mesmo é ―as
primícias dos que dormem‖ (I Coríntios 15:20). Ele é o primogênito dos mortos
(Colossensses 1:18). Ressurreição foi uma obra especial no corpo de Cristo pela
qual Ele foi levantado, e aquela obra, que começou na cabeça, vai continuar até
todos os membros serem co-participantes, pois:
“Apesar de nossos pecados exigirem
Nossa carne se tornar pó;
Ainda assim como Senhor nosso Salvador se levantou,
E assim farão todos os que o seguem”
Pois para nossa alma e espírito, a ressurreição começou em nós. Não chegou a
nossos corpos ainda, mas será dada a eles no dia determinado. No presente um
trabalho especial foi forjado sobre nós pelo qual fomos levantados de entre os
mortos. Irmãos, se vocês foram mortos e sepultados, e ficaram deitados por uma
noite, digamos, no Cemitério Onde se Acorda, e se uma voz divina lhe chamou
diretamente para fora da cova quando as estrelas silenciosas brilhavam no céu
aberto – se, digo eu, vocês se levantaram definitivamente do monte verde de
relva, que ser solitário deveria ser no vasto cemitério na noite escura! Como você
poderia sentar na vala e esperar pela manhã! Essa é realmente a condição que diz
respeito ao presente mundo mal. Você foi uma vez igual a todos os pecadores ao
seu redor, morto em pecado (Efésios 2:1), e dormindo a cova encomendada pelo
mal. O Senhor pelo Seu poder chamou você para fora de sua tumba, e agora você
está vivo no meio dos mortos. Não pode haver amizade aí para você: pois que
comunhão pode haver entre os vivos e os mortos? Os homens lá no cemitério que
acabaram de ser chamados não achariam ninguém no meio dos mortos com quem
pudessem conversar, e não poderão achar companhia neste mundo. Ali jaz uma
caveira, mas ela não pode ver pelos buracos dos olhos; nem tampouco há discurso
vindo de sua boca cruel. Eu vejo uma massa de ossos depositados no canto: o que
vive olha para eles, mas eles não podem ouvir ou falar. Imagine-se lá. Tudo que
você poderia dizer aos ossos seria perguntar, ―poderão viver estes ossos secos?‖
(Ezequiel 37:3). Você seria um estrangeiro nessa casa de corrupção, e você
desejaria sair o quanto antes de lá. Essa é sua condição no mundo: Deus te
levantou de entre os mortos, e da companhia com a qual você tinha regularmente
suas conversações.
Agora, eu clamo a vocês, não volte e cave na terra, para abrir as covas e achar um
amigo lá. Quem tiraria a porta de um caixão e clamar, ―Venha, você deve beber
comigo! Você deve ir ao teatro comigo!‖ Não, nós abominamos a idéia de
associarmo-nos com a morte, e eu tremo ao ver um cristão professo tentar ter
comunhão com homens mundanos. ―Pelo que saí do meio deles, e apartai-vos,
diz o Senhor; e não toqueis nada imundo‖ (II Coríntios 6:17). Vocês sabem o que
aconteceria a você caso depois de ter sido levantado, e fosse forçado a sentar
perto de um corpo morto recentemente tirado da cova. Você clamaria, ―Eu não
posso suportar isso; não posso aguentar isso‖; você preferiria estar do lado oposto
ao vento em relação ao corpo horrendo. Assim também com o homem que está
realmente vivo para Deus: atos de injustiça, opressão, ou impureza ele não pode
suportar; pois a vida se opõe à corrupção.
Note que, assim como fomos levantados por um trabalho especial de entre os
mortos, esse levantar é pelo poder de Deus. Cristo foi trazido novamente ―dos
mortos pela glória do Pai.‖ O que isso significa? Porque não disse, ―pelo poder do
Pai‖? Ah, amados, glória é uma palavra maior; pois todos os atributos de Deus
são exibidos em toda a sua pompa solene na ressurreição de Cristo de entre os
mortos. Lá havia a fidelidade do Senhor; não havia Ele declarado que o
ressuscitaria dos mortos (Isaías 55:3), e que não permitiria que o Seu Santo visse
corrupção (Salmo 16:10)? Não foi o amor do Pai visto nisso? Eu estou certo de
que houve um deleite no coração de Deus ao trazer de volta a vida ao corpo de
Seu Filho amado. E assim, quando eu e você somos tirados de nossa morte em
pecados, não é meramente o poder de Deus, não é meramente a sabedoria de
Deus que é vista, é a ―glória do Pai‖.
Oh, pensar que cada filho de Deus que foi chamado foi chamado pela ―glória do
Pai‖. Exigiu não somente o Espírito Santo, a obra de Jesus e a obra do Pai, mas a
própria ―glória do Pai‖. Se a menor centelha de vida espiritual tem de ser criada
pela ―glória do Pai‖, qual será a glória daquela vida quando chegar à perfeição
plena, e quando formos como Cristo, e vê-lo como Ele é (I João 3:2)! Oh amados,
tenham em alta conta a nova vida que Deus lhes deu. Pensem nela em lhes
tornando mais ricos se vocês tivessem um mar de pérolas, mais que se vocês
tivessem descendido do mais elevado dos príncipes. Há em você aquilo que
requer todos os atributos de Deus para vir a existir. Ele poderia fazer um mundo
somente com poder, mas você deve ser levantado de entre os mortos pela ―glória
do Pai‖.
Note a seguir que essa vida é algo inteiramente novo. Nós somos chamados a
andar em ―novidade de vida‖. A vida de um cristão é algo inteiramente diferente
da vida de outros homens, totalmente diferente da sua própria vida antes de sua
conversão, e quando as pessoas tentam falsificá-la, eles não conseguem.
Uma pessoa lhe escreve uma carta e quer que você acredite que ele é um crente,
mas dentro de uma meia-dúzia de sentenças aparece uma linha que trai o
impostor. O hipócrita copiou suas expressões de maneira ordenada, mas não
totalmente. Há uma guilda entre nós, e o mundo olha-nos de fora por um pouco, e
aqui e ali eles tomam alguns de nossos símbolos; mas há um símbolo privado,
que eles nunca conseguirão imitar, e assim em certo ponto eles se quebram. Um
homem sem Deus pode orar tanto quanto um cristão, ler tanto a Bíblia quanto um
cristão, e mesmo ir além de nós no exterior; mas há um segredo que ele não sabe
e não consegue falsificar. A vida divina é uma novidade tão grande que o
irregenerado não tem uma cópia com que trabalhar. Em todo cristão ela é tão nova
como se ele fosse o primeiro cristão. Ainda que em todos haja a imagem e a
inscrição de Cristo, ainda há uma borda branqueada ou algo da prata verdadeira
que esses falsificadores não podem conseguir. É algo novo, uma história, algo
fresco de Deus.
E, por último, essa vida é algo ativo. Eu já desejei que Paulo não tivesse sido tão
rápido enquanto o lia. Seu estilo viaja em botas de sete léguas. Ele não escreve
como um homem qualquer. Eu realmente gostaria de dizer a ele que se ele tivesse
escrito este texto na ordem apropriada, deveria ser, ―Como Cristo foi levantado de
entre os mortos pela glória do Pai, assim também devemos ser levantados‖. Mas
veja; Paulo pulou tanto assunto enquanto falamos: ele chegou a ―andemos‖. O
andar inclui a vida, que o simboliza, e Paulo pensa tão rápido quando o Espírito
de Deus está sobre ele que ele passou direto da causa para o efeito. Tão logo
recebemos a nova vida nos tornamos ativos: não sentamos e dizemos, ―Eu recebi
uma nova vida: quão grato eu devo estar. Eu vou na quietude usufruir disso‖. Oh,
queridos, não. Nós temos de fazer algo diretamente enquanto estamos vivos, e
começamos a andar, e assim o Senhor mantém-nos durante toda a nossa vida em
Sua obra; ele não nos permite ficar sentados contentes com o mero fato de
vivermos, nem permite que gastemos nosso tempo examinando se vivemos ou
não; mas nos dá uma batalha para lutar, e a seguir outra; Ele nos dá Sua casa para
construir, Sua fazenda para arar, Seus filhos para cuidar, e Suas ovelhas para
alimentar.
Às vezes temos tempos de ferozes lutas com nosso próprio espírito, e tememos
que o pecado e Satanás irão enfim prevalecer, até que nossa vida será dificilmente
reconhecida, mas é sempre reconhecida pelos atos. A vida que é dada àqueles que
estavam mortos, com Cristo, é uma vida enérgica, forte, que está sempre ocupada
para Cristo, e, se pudesse, moveria céus e terra para sujeitar todas as coisas àquele
que é sua Cabeça.
Essa vida Paulo nos diz que não tem fim. Uma vez recebida, nunca sairá de você.
―havendo Cristo ressuscitado dos mortos já não morre; a morte não mais terá
domínio sobre ele‖. É também uma vida que não está mais debaixo do pecado ou
da lei. Cristo veio sob a lei enquanto estava aqui (Gálatas 4:4), e teve os nossos
pecados sobre si (Isaías 53:6), e assim morreu; mas depois que Ele ressuscitou
não havia mais pecado sobre Ele. Em Sua ressurreição tanto o pecador quanto o
Fiador estão livres. O que Cristo teve de fazer depois de ressuscitar? Carregar
mais pecados (Hebreus 7:27)? Não, mas simplesmente viver para Deus. É aí onde
eu e você estamos. Não temos pecados mais para carregar; está tudo sobre Cristo.
O que temos de fazer? Toda vez que tivermos uma dor de cabeça, ou nos
sentirmos enfermos, clamaremos, ―essa é a punição pelo meu pecado?‖ Nada
disso. Nossa punição foi plenamente satisfeita, pois recebemos a sentença capital,
e estamos mortos: nossa nova vida deve ser para Deus.
“Tudo o que resta para mim
É somente amor e canção,
E esperar a vinda dos anjos
Para me levar aos céus.”
Eu tenho agora que servi-lO e ter prazer nEle, e usar o poder que Ele me deu para
chamar outros dos mortos, ―desperta, ó tu que dormes, e levanta-te dentre os
mortos, e Cristo te iluminará‖ (Efésios 5:14). Eu não vou voltar à cova da morte
espiritual nem ao meu caixão de pecado; mas pela graça divina eu vou continuar a
crer em Jesus, e ir de força em força, não debaixo da lei, não temendo o inferno,
nem esperando merecer o céu, mas como uma nova criatura (II Coríntios 5:17),
amando por ter sido amado primeiro (I João 4:19), vivendo para Cristo pois
Cristo vive em mim (Gálatas 2:19-20), ardentemente esperando a glória que será
revelada (Romanos 8:18) em virtude da minha união com Cristo.
Pobre pecador, você não sabe nada sobre essa morte e sepultamento, e nunca
saberá até que você tenha o poder de ser chamado filho de Deus (I João 1:12), que
Ele dá a todos os que crêem no Seu nome. Creia no Seu nome, e será todo seu.
Amém e amém.


Pregação nº 1627,
Entregue na manhã do dia do Senhor, 30 de outubro de 1881,
por Charles Haddon Spurgeon,
No Tabernáculo Metropolitano, Newington – Londres